09/03/2010 11:17 Brincadeiras de outrora
Nos idos de 1956, 57 a garotada brincava de "como está fica e autus". Primeiro havia um acordo entre as partes. Depois você podia ser supreendido quando abaixava para amarrar o sapato ou estava prestes a morder o sanduiche na hora do recreio. "Como está fica". A ordem tinha de ser obedecida senão vinham as cachuletas. A imobilidade era mantida até que fosse proferida a palavra-código libertadora. "Autus".
Nos anos da década de 1960 começaram as mudanças da adolescência e a brincadeira entronizou malícia. A forma foi mantida, mas em vez de "como está fica" a ordem transformou-se em "mão no breque". Em certas situações, na frente de meninas, era constrangedor, mas as cachuletas eram temidas e só voluntários entravam na brincadeira.
Berlusconi, grande brincalhão, aparece na foto com a mão no breque. sidney borges | comentários(0)
24/01/2010 12:33 Retratos do cotidiano
A única casa de três andares da rua não tinha exatamente três andares. O dono a construiu inspirado em gravuras de contos de fadas. O terceiro andar era uma torre circular com porta em arco abrindo para uma pequena sacada. Quando o construtor morreu a casa foi alugada. Um dos novos moradores, já velhinho, costumava ficar no jardim, na cadeira de balanço, olhando a grama crescer e as borboletas.
No final do dia aboletava-se na sacada da torre a apreciar as meninas da fábrica de tecidos.
Os moleques da rua o chamavam de Nono. Com o tempo o apelido ganhou uma extensão, passou a ser "nono das quatro risadas".
Alguém notou que por volta das dez horas da manhã ele abria um largo sorriso, o que se repetia no meio da tarde. O arguto observador também percebeu que a manifestação estava ligada à passagem da Dorinha, funcionária do escritório da fábrica.
Todos os dias a garota transitava na porta do Nono. Na ida e na volta, de manhã e de tarde. A bamboleante Dorinha ia na venda do Dárcio comprar biscoitos e chocolates para os colegas.
Um dia Dorinha sumiu, evaporou, desmaterializou-se. Nono parou de sorrir. Inicialmente ficou triste, depois com raiva, de tempos em tempos levantava o punho como um pantera negra. Dorinha mudou o trajeto, passou a ir ao novo supermercado que tinha mais ofertas e preços melhores. Nono foi vítima do liberalismo econômico.
Com o passar do tempo ele já não descia, passava os dias recluso na torre, saindo raramente na sacada para cuspir.
Até que uma cusparada das mais alentadas acertou a calva do seu Toyota. Veio até polícia. A vizinhança saiu para ver o que estava acontecendo, a porta do Nono ficou parecendo a rua Direita.
Foram todos para a delegacia, seu Toyota blasfemando em alemão, o apelido era devido aos tremores quando ele tomava umas.
Nono entrou no camburão sorrindo, na frente da multidão que se formara estava Dorinha. A irmã que o acompanhava, Alba, disse que ao voltar ele estava radiante, colocou Charles Trenet na vitrola, dançou, foi à sacada, cuspiu e depois dormiu.
Nunca mais se levantou, viajou volteando nos braços de Dorinha. Ou apenas morreu sem dar um pio, como morrem os passarinhos. Dorinha casou-se com o moço da farmácia, teve três filhos, engordou duas arrobas e hoje vive com Mané, guarda do posto de gasolina. sidney borges | comentários(0)
13/01/2010 19:11 Pensamentos ao entardecer
O carrinho que apregoava pamonha, pamonha, pamonha sumiu. Pamonha de Piracicaba. Era franquia, tinha em todo lugar. Eu soube que a pamonha não era exatamente de Piracicaba, a receita talvez fosse, mas havia muitas fábricas espalhadas por esse mundão afora. Por que será que sumiu? As pessoas não gostam mais de pamonha? Eu nunca gostei, não tenho tendências galináceas, milho e derivados não me atraem. Jack Daniel's prova a velha tese: toda regra admite pelo menos uma exceção.
Some um, aparece outro, apregoadores sempre existirão. Os de gás engarrafado continuam espalhando no éter músicas tristes. Hoje foi comovente ver a melancolia que se apossou de meu cão Brasil ao ouvir os acordes de Pour Elise. Fiquei tão desconcertado que sentei-me ao lado e fizemos dueto uivando. Ele me olhou com ar surpreso, deve ter pensado: isso é que é amigo, cuida de mim, me dá comida, passeia comigo e ainda por cima sabe uivar. Definitivamente o melhor amigo do cão é o homem. Brasil é filósofo. Depois das considerações a respeito da simbiose homem-cão saiu na maior vula atrás da borboleta azul... sidney borges | comentários(0)
06/01/2010 12:19 Destruindo vamos vivendo
Ontem vi na televisão dois técnicos falando sobre prevenção de catástrofes em áreas de risco. Papo interessante, acontece todos os anos. Meses depois das vítimas enterradas ninguém mais fala no assunto. Até a próxima catástrofe.
Falaram de Angra dos Reis, que juro, quando conhecí, em 1972, só pensei em desabamentos.
Também falaram de Blumenau, bola da vez de 2008. Consta a lenda que quando o vilarejo que posteriormente seria a cidade foi erguido, houve problemas com os índios, que se sentiam donos da terra. Quando, no entanto, os desbravadores brancos começaram a roçar áreas ribeirinhas os índios apenas observaram. Perguntados responderam que aquela terra não era deles, era do rio. O rio um dia iria reclamar. Reclamou.
Os mortos? Mortos devem ser enterrados e ponto final.
Por falar em morte, há algo estranho na forma como o Brasil trata a orla e a exploração do turismo. O petróleo, fonte de recursos, está nas mãos da Petrobras que sabe como administrar as riquezas do sub-solo. O orla brasileira, com praias belíssimas, poderia também ser fonte de recursos. Mas não há uma Petrobras para cuidar dela, está em mãos de prefeituras e câmaras.
O resultado pode ser traduzido em poluição, especulação imobiliária predatória, comércio ilegal e outros males já cantados em prosa e verso.
Não há no horizonte sinais de mudanças. Meu raciocínio vale para a faixa litorânea que se estende do Oiapoque ao Chuí. Lamentável.
No saguão movimento incessante, expressões sérias, crise no ar. O som do alto-falante quebrou a concentração: o chefe da defesa civil deve apresentar-se na sala da direção. Uma porta foi aberta e três indivíduos entraram.
O diretor, ocupado em meio a pilhas de relatórios, foi direto:
- O que temos? Quero detalhes.
Enquanto o diretor falava o chefe da defesa civil abriu uma pasta e entregou o conteúdo.
- Faça um relatório verbal, estou ocupado, lerei mais tarde.
- Tivemos baixas. Muitas. Os corpos foram removidos, os feridos hospitalizados. Também perdemos parte das habitações. Há uma equipe de engenheiros analisando se convém reconstruir. O que mais incomoda é a posição geográfica, estamos perto do nível zero, ameaçados por todos os lados.
- O que causou a tragédia?
- As chuvas, muitas árvores não resistiram. Além do peso das águas tivemos ventos.
- E quanto aos inimigos?
- Ontem tivemos uma tentativa de invasão. Soldados repeliram o agressor. Parecia um urso.
- Minha opinião é pela mudança, precisamos reconstruir a comunidade.
O diretor geral ouviu e pelo interfone deu o recado: secretária, avise a todos que entra em prática o plano M. Vamos embora.
Anteontem passeei com meu cão, Brasil, como faço todos os dias. As chuvas recentes alteraram a região. Ele examinou as novidades, Brasil é meticuloso. E conservador, quando nota mudanças fareja o que há e olha para mim com ar interrogativo.
Quando tenho tempo explico, ele entende, tem QI alto.
No busca aqui, procura alí, parou em frente a uma árvore caída e enfiou o nariz em uma colônia de abelhas jataí. Nervosas elas avançaram, a alternativa foi fugir. E comemorar, poderia ter sido pior. Jataís não têm ferrão.
Ontem voltamos ao local. Não tinha mais abelhas. Mel de jataí é uma delícia. sidney borges | comentários(0)
05/01/2010 10:23 Deu na Folha Online:
FAB prefere caça sueco a francês
O caça francês Rafale, da empresa Dassault, ficou em terceiro e último lugar no relatório técnico que a Aeronáutica entregou ao ministro Nelson Jobim (Defesa) sobre o projeto de compra de 36 caças para a Força Aérea Brasileira. O Gripen NG, da sueca Saab, foi o mais bem avaliado, e o F-18 Super Hornet, da norte-americana Boeing, ficou em segundo.
Comentário do Degas aqui:
Eis aqui este sambinha feito numa nota só. Outras notas vão entrar mas a base é uma só... Lula decide se Battisti vai ou fica. Lula decide se Zelaya fica ou sai. Lula faz a escolha do caça que vai defender o pré-sal da sanha imperialista. Se a decisão é dele, por que os militares perdem tempo fazendo avaliações e relatórios? Talvez seja um teste. Lula, criador do céu e da Terra, aquele que deu vida aos homens e aos animais, que deu mel às abelhas, quer saber se os militares que têm a incumbência de defender o pré-sal da sanha imperialista sabem escolher. Pelo jeito não sabem, colocaram em terceiro lugar a preferência divina. Lula, que escreve direito por linhas tortas, mostrará aos homens de farda que caça é o Rafale. O resto é invenção da zelite de olhos azuis. sidney borges | comentários(0)
02/01/2010 11:55 Dica às pitonisas
Está difícil olhar as notícias. Os dramas próximos parecem - e são - mais intensos. Morre gente no Iêmen, explodem carros-bomba no Paquistão. Leio e nada acontece nas cordas vibrantes da minha sensibilidade. Mas aqui ao lado, em Angra dos Reis, é diferente. Não posso deixar de me emocionar com a história da família que comprou o fim de ano dos sonhos.
Pai, mãe e duas filhas, de 9 e 12 anos, foram passar o reveillon em uma pousada na Ilha Grande. Montanha, mar, tranqüilidade, aconchego. A montanha não suportou o aguaceiro e veio abaixo. Da família restou o pai tetraplégico. A mãe está em coma profundo na UTI, talvez não sobreviva. As meninas morreram. Isso é o que eu chamo de tragédia.
Não é preciso ter sido ungido pela sabedoria do Oráculo de Delfos para afirmar que em dezembro de 2010 teremos enchentes, deslizamentos, mortes, gente desabrigada, choro e ranger de dentes. Acontece quase todos os anos, varia a época, pode ser em dezembro, janeiro, fevereiro ou até março, mas sempre acontece.
Nas lembranças da infãncia está gravada a chuva do Natal de 1960. Sem ver a ponte do Tamanduateí transbordado, Seu Manoel, próspero comerciante do ramo de panificação entrou no rio com o Chevrolet 34. No carro viajavam três filhos pequenos. Acompanhavam o pai que levara para casa parentes que haviam comemorado o Natal com eles.
No mesmo dia, pela manhã, outros dois vizinhos, pai e filho, desceram do bonde na Rua São Jorge, iam ao Corinthians jogar bocha e comemorar o Natal com os companheiros. Morreram atropelados. Um carro na contramão lançou-os para o alto e fugiu sem prestar socorro.
No dia seguinte acompanhei dois velórios na mesma rua. Era costume velar os mortos em casa. O choque foi grande, crianças não entendem direito essa coisa de morte, não que adultos entendam, mas para crianças a vida é cheia de surpresas agradáveis. Morrer parece estranho, fora de propósito.
Comemoro a volta do Sol neste sábado luminoso. Não sei se foi por causa das tragédias que acompanhei na infância, mas depois de adulto prefiro ficar em casa quando há deslocamentos em massa. Os documentários do Discovery sobre manadas de gnus migrando no Seringheti reforçam minha disposição de pilotar a poltrona da sala enquanto a poeira não baixa.
Mas gosto de comemorações, apesar de ter como certo que não dependem da geografia. São coisas da alma, fenômenos vibratórios. Tanto faz aqui ou pra lá de Bagdá, o que importa é a disposição emocional de compartilhar momentos da existência com a mente quieta, a espinha ereta e o coração tranqüilo. Em companhia de amigos, raros que são. sidney borges | comentários(0)
15/12/2009 13:31 Estrutura soviética
Na União Soviética de 1920 o povo estava esperançoso. O regime se propunha a dar vez aos excluídos. O clima era de euforia.
Foram recrutados engenheiros para trabalhar em planejamento. Os rapazes eram bons e dedicados, a produção cresceu com a racionalização. Pelo comunismo valia usar até o fordismo.
Na área de hortifutigrangeiros foi observado que viajavam em média mil quilômetros de trem antes de chegar a Moscou.
Com o passar do tempo e o estabelecimento da burocracia, o passeio das couves passou a vigorar como "Lei dos 1000 km".
No final dos anos da década de 1980 as hortaliças eram cultivadas a menos de 50 km da capital.
A lei era cumprida sem que ninguém pensasse em contestá-la.
Alfaces, beterrabas e cenouras eram colhidas e embarcadas em trens especiais.
Viajavam 500 km, davam meia volta e depois de percorrer outros 500 km entravam gloriosamente na estação central de Moscou. Bingo, as cansadas e desentendidas alfaces chegavam murchas ao destino.
Não é preciso muito mais para entender porque não deu certo.
A Educação no Brasil funciona de forma parecida. Na verdade um pouco pior, pois há nela embutida uma grande dose de hipocrisia.
Os professores que dão aulas na rede pública estão sendo testados.
A Secretaria Estadual de Educação do litoral norte está localizada em Caraguatatuba.
Quem mora em São Sebastião, Ilhabela e Ubatuba tem de deslocar-se de sua cidade.
Ubatuba, por exemplo, poderia realizar as provas em alguma escola local. Espaço não falta.
No sistema soviético, é mais fácil arrastar o piano do que empurrar o banquinho.
Em vez de alguns pacotes contendo provas e alguns funcionários para fiscalizar, centenas de pobres diabos deixam suas casas em pleno domingo e fazem uma viagem de mais de 100 km.
Para satisfazer a falta de compromisso dos burocratas com os que não têm quem os defenda.
Como não existe planejamento, a época não é levada em conta. Com as estradas cheias de turistas, a viagem dura horas e horas de tortura.
No final, a prova. Oitenta questões em 4 horas com 5 alternativas cada. Em pleno domingo com os professores cansados e sem almoço.
Ao abrir as questões, a surpresa.
Nada a ver com o conteúdo ensinado, apenas pedagogês.
O sistema educacional brasileiro deixaria os burocratas da extinta União Soviética orgulhosos.
14/12/2009 12:48 Fim de feira Ontem teve prova de Português para professores da rede estadual. Quem não fez não poderá assumir aulas no ano que vem.
Na prova de 80 questões perguntaram sobre Piaget e Vygotsky. De literatura caiu Guimarães Rosa.
Nenhuma pergunta sobre verbos e suas conjugações, também não caiu redação, nem perguntaram se está certo falar menas.
Interessa apenas saber se os professores decoraram o pedagogês.
Depois há quem reclame que os meninos saem da escola analfabetos.
Queriam o quê?
Bola preta para a Secretaria Estadual da Educação.
Desculpem, preta é preconceito.
Que tal bola com características cromáticas peculiares às das peles dos afro-descendentes? sidney borges | comentários(1)
04/12/2009 10:44 Se você é lulista, vote em Serra
A coisa em Brasília está feia e meus sais estão acabando. Não é fácil resistir a tanta emoção. Existe alguém honesto envolvido em política? Será que se eu me tornar político também vou avançar na bolsa da viúva? Perguntas de difíceis respostas.
Melhor colocar um ramo de arruda na orelha e falar da atitude do goleiro do timinho. Ficou parado na hora do pênalti. Faltou ética profissional, como falta aos gestores do dinheiro público que o usam em benefício próprio. O goleiro tem de ter reflexos pavlovianos em relação à defesa da meta. Não importa de onde vem a bola nem quem a chutou. Mesmo que tenha sido o Lula e o goleiro seja do sindicato dos puxa-sacos, filiado à CUT. É defender ou defender.
E digo mais: a obrigação da torcida é lamentar o placar adverso e não escrever no jornal do clube "doce derrota". Exatamente para um algoz de quem o timinho é freguês contumaz.
Mudando de pato para ganso, enquanto escrevo o céu desaba. Quero ser um mico de cavalinhos se o clima não mudou. Mudou sim, ora se mudou. Tomara que o Lula conserte.
Por falar no maior sábio que a humanidade conheceu, tenho uma tese não muito popular entre petistas. Será melhor para a continuidade do projeto Lula a vitória da oposição. Imagine o leitor como a história seria outra se o Brasil tivesse uma democracia estável no transcorrer do século XX.
Getúlio Vargas chegaria ao poder em 1930 pelo voto. Vamos brincar de faz-de-conta e esquecer a revolução. Depois de duas gestões o “pai dos pobres” entregaria a faixa e a caneta ao sucessor, em 1938. Outro político teria a máquina nas mãos, o DIP, os jornais cinematográficos, Filinto Müller...
Será que o mito Getúlio seria o mesmo?
Vamos lembrar de alguns sucessores fiéis e seus amos esperançosos e depois frustrados.
Quércia criador elegeu Fleury criatura. Brigaram.
Maluf “pai” elegeu “o filho” Pitta (que Deus o tenha). Brigaram.
Aqui pertinho, em Taubaté, Ortiz e Peixoto confirmam a tese por indução finita: vale pra um, vale pra dois, vale pra ene.
Não vou atentar contra a paciência do leitor, mas seria possível escrever laudas e laudas dando exemplos.
Não venham os petistas com o papo da ética das esquerdas. Na União Soviética o velho Joe, digo Stalin, enviava cães amestrados a dar machadadas em cabeças de antigos irmãos de fé e camaradas. Radical.
É com base na observação da vida que ouso afirmar: Dilma Rousseff presidente é o fim de Lula.
Com a economia em ordem e a máquina nas mãos, Dilminha fica oito anos.
Quando terminar o tempo dela Lula estará fora da mídia e com mais de setenta anos, tendo de enfrentar Aécio Neves ainda jovem e pimpão. Assim como o vovô Tancredo (que Deus o tenha) nasceu velhinho, Aécio caiu na poção da juventude.
Fica a advertência aos lulistas. Vote em Serra e Lula continuará falando mal do neoliberalismo, dos loiros de olhos azuis e será candidato em 2014.
Vote em Dilma e Lula perderá os holofotes e só poderá ser candidato em 2018. Se ainda estivermos aqui, pois dizem que o mundo vai acabar em 2012. Tenho dito. sidney borges | comentários(0)
19/11/2009 09:54 Verão. Começou cedo. E quente...
As estações do ano radicalizaram. O inverno permaneceu até outubro com madrugadas frias e cobertores. Waal! Cobertor em Ubatuba em outubro! Em mais de 40 anos na cidade não me lembro de ter usado nada além de lençol. Agora esquentou de vez. Parece um forno. Ou seria o inferno?
Ontem foi finalmente decidido que Battisti vai. Ops! Estamos no Brasil, sempre cabe recurso. Lula dará a palavra final. O ex-terrorista que vem ocupando a mídia por muito tempo é um criminoso e deve pagar pelos erros. De certa forma está pagando, vive na incerteza.
Na época em que Battisti cometeu os crimes a Itália vivia em plena democracia. A esquerda tinha assentos no parlamento, não havia censura nem perseguições políticas. Comunistas andavam leves, livres e soltos pelas ruas, alguns cuspindo na burguesia decadente, outros olhando apetitosas criancinhas. É voz corrente que comunistas comem criancinhas. Há um tal de Lugo, no Paraguai...
"Idealistas" das extremas direita e esquerda não entendiam (ainda não entendem) o processo democrático, acho que cometi um quase pleonasmo. Enfim, não existem democratas extremistas, pelo menos não violentos.
A direita achava o governo frouxo e explodia bombas em estações ferroviárias matando dezenas de burgueses, ou seja, gente como nós que trabalhamos, pagamos impostos e vamos aos estádios torcer.
Para os extremistas somos alienados.
A esquerda seqüestrava empresários e políticos, Renato Curcio e sua Brigate Rosse justiçaram o democrata cristão Aldo Moro, ex-Primeiro Ministro da Itália.
Em troca do quê? De holofotes talvez.
Mesmo nesse clima de incerteza a Itália não editou nada parecido ao AI-5 que privou os brasileiros de liberdade. A democracia italiana combateu o terrorismo dentro da lei.
Em agosto de 2007 a atriz francesa Fanny Ardant expressou admiração pelos combatentes das Brigadas vermelhas e classificou Renato Curcio como heroi de um movimento apaixonado. Um princípio básico da democracia é respeitar opiniões alheias, ainda que sejam idiotas.
Pois foi em plena vigência democrática que Cesare Battisti do PAC (Proletários Armados pelo Comunismo) assassinou 4 burgueses, um deles joalheiro, símbolo do capitalismo decadente.
Condenado à prisão perpétua conseguiu fugir e depois de muitas andanças chegou ao refúgio dos criminosos do cinema. Rio de Janeiro. Içaaaa. Praias, mulatas e futebol.
Preso, em 2007, Battisti foi considerado refugiado político pelo ministro Tarso Genro. Ontem o STF decidiu pela "extradição mas não é bem assim", ou seja, deu um jeitinho brasileiro.
Quem vai dizer se Battisti vai ou fica é o presidente Lula. Situação que classifico como batata quentíssima nas mãos.
Nos Estados Unidos tem gente que não gosta da democracia, odeia pretos, judeus, hispânicos e orientais. Um doido varrido desses explodiu um edifício em Oklahoma matando centenas de americanos.
Timothy Mc Veigh é o nome da sumidade. Preso e condenado à morte foi executado.
Faço uma pergunta aos leitores. Os 167 assassinatos de Mc Veigh foram crimes políticos ou fruto de insanidade? O que diria Tarso Genro?
Inacreditável o Palmeiras. Como torcedor do tricolor dei muitas risadas. Sem conseguir ganhar do adversário os verdes brigaram entre si e deram adeus ao título. Talvez até à Libertadores.
E a confusão em Honduras? Zelaya continua hospedado em nosso hotel, digo em nossa embaixada. O povo não está nem aí, Honduras está na Copa.
Cabelo com orgulho é crina, cilindros de espessura fina, cabelo quer ficar pra cima, laquê, fixador, gomalina... (Arnaldo Antunes)
O calor chegou. Com ele os mosquitos. Com os mosquitos os repelentes. Hoje eu me encontrava ocupado passando um creme branco na pele quando me ocorreu que o cheiro e a consistência lembravam Brilcrem. Tenho forte lembrança desse fixador. Foi lançado na época em que eu não sabia o que fazer com os cabelos. Até um ou dois anos antes minha mãe combinava com o barbeiro:
- Americano curto.
Ele respondia eco - era italiano, no Brás todo mundo era italiano - e raspava tudo. Ou melhor, quase tudo. Deixava uma pastinha sobre a testa. Depois bezuntava com brilhantina e penteava em movimento circular. Nascia o topete. Eu não dava a mínima, saia do salão com cheiro enjoativo e ia jogar bola ou empinar papagaio. Logo o cheiro passava.
Não sei bem precisar o momento da virada em que descobri os cabelos. Certamente coincidiu com a chegada do Brilcrem. Lembro-me bem da músiquinha: Brilcrem, apenas um pouquinho. Brilcrem, você irá brilhar. Brilcrem, é o melhor caminhuuuuuu. Para mil pequenas conquistar.
Pessoas mudam, entrei na fase da aparência. Acho que foram os hormônios. Acreditei na musiquinha e comprei um tubo grande de Brilcrem.
Foi frustrante. Funcionava na televisão, mas comigo não. Meus cabelos finos e revoltos tinha opinião firme, não gostavam de ordem. Ora eu os penteava com risca e topete. Em outras ocasiões para trás.
Qualquer que fosse a opção logo voltavam ao natural, cada um para o seu lado, a maioria para a frente.
Antes do momento Brilcrem brilhantina Glostora foi razoavelmente eficaz. O penteado ficava firme e a cabeça igual a uma mesa envernizada. Se a minha mãe não me obrigasse a tomar banho tenho certeza que o penteado duraria semanas.
Também havia o tradicionalíssimo Gumex, que era vendido em pó com instruções para o preparo. Era mais radical, eu passava Gumex e penteava para trás. Ficava parecendo o Gino, centroavante do São Paulo. Na verdade eu queria ficar parecido com o Mandrake que tinha penteado dos mais elegantes e namorava a princesa Narda. Mas parecer com o Gino não era de todo mau, ele que tinha feito um gol de bicicleta em Portugal e deixado o narrador sem fala.
Mas voltando ao Brilcrem, acho que além de engordurar os cabelos, também espantava mosquitos. Medo de grudar. Em busca da aparência elegante aprendi muito, inclusive que ao serem fixados com Gumex os cabelos ficavam duros como vidro. O mosquito que se atrevesse seria esmagado pelo impacto. Gosto de Gumex, acho que vou usar novemente. Dura lex, sed lex, nos cabelos só Gumex. sidney borges | comentários(0)
08/10/2009 10:10 Enem
Fuvest e PUC-SP deixam de usar Enem. Fizeram bem as tradicionais universidades em deixar de lado o marketing do governo. O que é o Enem? Alguma revolução que vai substituir o conhecimento? Os melhores alunos dos colégios particulares serão aprovados sempre, com ou sem Enem. Não acontece o mesmo com os melhores alunos das escolas públicas. Embora o material humano seja bom, a escola não faz a sua parte. Não ensina. Não cumpre o programa do vestibular. No frigir dos ovos, mudar o telhado não altera as más condições das fundações. Antes de cuidar de avaliações é preciso ensinar. No Brasil de verdade a escola não faz a lição de casa. sidney borges | comentários(0)
07/10/2009 11:34 Pensata
Cada povo com suas tradições, usos e costumes. No Japão há banhos públicos onde a nudez é normal. No entanto, uma estátua de figura humana nua é considerada ofensiva.
No Brasil dos militares o filme "O último tango em Paris" foi considerado perigoso.
Atentava contra a moral cristã e poderia colocar em risco a estabilidade da família brasileira. Afinal de contas a Copa do Mundo havia sido conquistada no México e o milagre estava bombando. Ame-o ou deixe-o era o tema.
Parece que está no ar novamente. "Médici ou mude-se" corre o risco de ser substituído por "Lula ou aeroporto".
O filme acabou por tornar-se um divisor de águas. Nas festinhas da intelectualidade formavam-se dois grupos. Quem viu o filme nas telas e quem leu no Cahiers du Cinéma. Não chegavam a cuspir uns nos outros, mas havia notório ressentimento.
O certo é que para ver o filme era preciso viajar. Por capricho dos "Delfim Boys", a viagem era dispendiosa. Havia o depósito. Era preciso pagar salvo-conduto para sair do país. Só a zelite viajava.
Anos depois fiquei aborrecido com a performance bezuntada da "bad trip" de Marlon Brando e Maria Schneider. Mas isso é assunto para minhas crônicas de cinema. Agora o papo é sobre loucuras do mundo.
Vivemos em um grande hospício. Sem muros... sidney borges | comentários(0)
16/09/2009 22:05 Pré-sal ou pós-sal?
Faz tempo que venho alertando sobre a possibilidade de roubo de nosso precioso petróleo da camada pré-sal.
Senão vejamos, o raio da Terra é de 6400 km, portanto, do Japão até o petróleo verde e amarelo são apenas 12 793 km. Fica no ar a dúvida de quem é o pré-sal? Nosso ou deles?
Na verdade pré-sal significa antes do sal e o petróleo está antes do sal em relação ao Japão e depois do sal em relação à superfície das águas brasileiras, portanto o nome da camada petrolífera deveria ser pós-sal.
Lula que tudo vê e tudo sabe, menos coisas que ele nunca soube, tipo mensalão, vai comprar caças para proteger o pré-sal. Lula tem sempre razão, quem mais diria que a Amazônia está ganhando cada vez mais importância no mundo?
No entanto, temo pelo pré-sal. Neste exato momento a CIA e a zelite nipônica estão enfiando um canudo comprido para roubar o precioso líquido das entranhas da mãe pátria.
Não passarão.
Nada há a temer brasileiros, brasileiras e fiscais do Sarney. Os caças franceses logo estarão aí para proteger nossas riquezas.
Duela a quien duela, como diria o amigo-irmão e neocompanheiro, Fernando Collor de Mello, aquele da "Casa da Dinda" das cascatas e jacarés. sidney borges | comentários(0)